15 de out de 2017

Hiparquía

Yo, Hiparquía, no seguí las costumbres del sexo
femenino, sino que con corazón varonil seguí
a los fuertes perros. No me gustó el manto sujeto
con la fíbula, ni el pie calzado y mi cinta se
olvidó del perfume. Voy descalza, con un bastón,
un vestido me cubre los miembros y tengo
la dura tierra en vez de un lecho. Soy dueña
de mi vida para saber tanto y más que las ménades para cazar.5

23 de jan de 2017

A lua e eu

Meu corpo sob o atlântico
E diante de pupilas exaltadas
a África

Um satélite à espreita,
laranja, despontando no deserto,
me queima pela janelinha do avião.

Será um reflexo dele no mar português?
Minha lágrima salgada também cai nessa água.
Abismo e espelho desse céu
tombado aos meus pés.

Vejo sinal de esperança.
Indicação da trilha.

Rito de passagem
para essa jornada de busca
a que me lanço agora.

19 de jan de 2017

Reticências

Reticências – Manu Campos

Ela sentia que precisava se jogar dentro do seu próprio ser, mais profundamente. Fazer brotar sua essência mais real, com mais intensidade. Se assim não fizesse, o amor não despertaria.  Os sentimentos, as vontades, as verdades lhe levavam até a beira do abismo, mas não dava o passo à frente para o voo, para o eco de sua expressão genuína.  E ela intuía, silenciosamente, que por isso ele se foi, sem ela.

Um furacão passou pelas pernas, a levantou para o alto e evaporou, deixando-a cair bruscamente no chão. Agora está ali, caída, perdida em um vazio de ser. Tentando se arrastar para se levantar. Mas teme sair fora do seu próprio eixo, fora de seu próprio ritmo. Pois sabe que se assim fizer, tudo que se passou naqueles últimos dias será perdido e ela entrará novamente em um ciclo que não é seu. Em um ciclo alheio ao seu desejo e ao seu movimentar autêntico. 

Tem que subir. Ouve um chamado, tem uma continuação lhe esperando. 

Cada gesto de uma vez, suavemente. Como cada palavra agora no papel. Uma de cada vez. Deixando a ir, subir, sentir como o corpo conduz de dentro o gesto e o gesto o ritmo e o ritmo o enredo, que se volta para o centro e novamente impulsiona o gesto.

Os pensamentos viram partes do corpo, incorporados ao movimento que se forma. Observa as memórias e como elas afetam cada músculo produzindo cada mínimo suspiro.

E assim se lembra da sua blusa, e nela a palavra amor. Talvez tenha sido a primeira coisa que tenha visto nele. Foi o que lhe chamou para perto? O que lhe deu coragem da aproximação? Ele ali, saindo do prédio da antiga fábrica, no fim de um encontro urgente por um mundo melhor. Ele e sua mochila, sua pochete de couro argentina, um cabelo de estrangeiro e uma afirmação sobre o peito; amor, si!. Aquilo a moveu no primeiro dia e embalou a história pra frente.

E agora ali caída no chão sem conseguir se levantar do tombo que recebera, sente que como uma jiboia presa a uma árvore o corpo começa  a se contorcer para iniciar a nova caminhada. A lembrança desata um nó. Primeiro passo da dança...

(Mas vem cá,  porque afinal escrever essas história. Falar de amor!? Pra quê, estamos em plena fase de um novo feminismo, e eu querendo falar sobre isso? Rilke não recomendaria a uma jovem poeta... Melhor falar sobre o sol do verão carioca de 40o que está entrando pela janela, batendo nos arbustos que tentam me separar dos vizinhos mais pobres, mais alegres e mais unidos que eu. Minha foto de adolescente boba rindo sem graça na praça. Ou o processo controvertido de retirada da presidente que a TV muda não me deixa esquecer.  Ou quem sabe sobre o pedaço do bolo que como há mais de vinte minutos em jejum, porque estou ansiosa, nervosa, estranha e não consigo me concentrar em nada. A cabeça me corrói, vontade de não ir para lugar algum, de ser outra, de estar em outro lugar, fugir por ai sem lenço, sem identidade e sem temor. Falta de ar. Tenho que fazer uma mala, tenho que ir para São Paulo, tenho que escrever para o diretor, me chamam, tenho que ir! Quem disse que quero? O que eu quero mesmo é escrever sobre a blusa dele e sobre a palavra amor impressa nela.)

Entrou em casa com as sacolas cheia. A feira rendeu a semana e além dela. Estava alegre, esperançosa, sentia que agora ia. Subvertendo todos os indício, acreditava. Deliciosa ilusão. Botava fé na parceira, em todas as estradas que pegariam, nas músicas que escreveriam juntos, nas filosofias nas quais se perderiam, gastando horas e horas olhando um para o outro, tentando penetrar a alma alheia. Em todos os beijos, os sussurros e os arrepios das peles se fundindo num prazer simultâneo.

Mas ao abrir a porta, um gesto dele fez a sacola escorregar de suas mãos abismadas. De costas, sem blusa, em frente ao computador, não se virou para vê-la chegar. Levantou o braço e acima da cabeça fez como se acenasse para alguém longe, mas parecendo que dizia; - não venha, estou ocupado demais! Flechada no peito. A garganta travou. De relance já entendia do que se tratava. Entrou na cozinha para se recompor, largou as sacolas e desmoronou por dentro.

Volta a sala mascarada, se aproxima mais e vê: ele vai embora, passagens para comprar. Sem lhe dizer nada, sem pensar em depois, sem nada. Se vai! Já era o esperado, não havia surpresas, quebras, vacilos, havia o que havia no início, o finito. Mas seu lado sonhadora prevalecia e ela embarcou na miragem da virada, do inusitado, da ousadia. Não era o felizes pra sempre que queria, - não mesmo -, isso também assustava sua natureza libertária. O que queria era o agora estendido e sem fim à vista. Isso que ela queria; um próximo capítulo e, quem sabe, um romance inteiro.

Dai veio a lágrima embaçando os óculos no museu, veio a DR equivocada, veio a cachoeira tentando reverter na alquimia. Também veio o mirante com a lua cheia, a ventania balançando a cabeça e os corpos que se davam prazer. Mas não veio mais o êxtase sincronizado, a sintonia fina de antes, o olhar mais intenso, a espontaneidade da leitura da poesia falada. E veio a percepção que aquilo tudo tinha sido mais dela.

Buscou razões, explicações e convenceu-se de que faltava, sim, a sua ação, o seu trabalho, a sua expressão. Havia um silêncio, um medo e um colocar o outro acima de si. Viu em segundos que buscava adquirir, ao estar com o outro, algo que ainda não tinha exposto pro mundo, mas tinha por dentro, escondido na gaveta. Estava, como tantas, amarrada ao  sonho romântico que aprendeu brincando de boneca, casa de boneca, sendo criada para o outro, para ser passageiro da própria história. Coisas que mulher ainda trás do berço.

Respira mais livre, o chão já não suga tanto, os gestos internos já estão mais fáceis. Lateralmente no piso gelado, ainda deitada, a mão segura a cabeça. Olha pra janela e vê a sombra da samambaia estampada na cortina e volta a atenção  aos pensamentos que seguem mais tranquilos. Relembra sem medo.

Ele foi embora num dia de calor intenso por dentro e por fora. Três da tarde, um dia como outro, só que não, nele tudo urgia. Mas houve tempo pro beijo mais quente na frente do aeroporto, pras pernas tremerem, o sorriso se alargar e o olho marejar. Houve tempo para as palavras de carinho, liberdade e quem sabe nos encontramos numa nova encruzilhada do caminho, afinal acreditamos no amor livre. Houve um aceno de frente e um sorriso de que aquilo tinha mesmo que ser feito.

E ele foi, parecendo leve; e ela ficou, internamente firme.  Mas saiu ouvindo Elza. Era uma mulher do fim do mundo e até o fim cantaria! Mas sua voz ainda estava rouca, ainda não saia com a potência de dentro.

Foi seguindo. O roteiro da vida conduzia. De lá tinha uma reunião para pisar no chão novamente.

Sentada no café, se viu diante de uma parceira de luta, de amores, de dores, de expectativas, de vontade de crescer e de gritar bem alto tudo que carrega no peito. E ali, naquele encontro - que definiria seu futuro - foi apresentada a Nora, à porta batida de Nora. A transgressão de Nora.  

Ouviu durante uma hora a história de uma mulher, uma personagem, um ícone feminista que em outro século revoltou-se contra os padrões e partiu para seguir seu caminho independente do outro. Ao fim, estava empoderada, impregnada da paixão que pulsa da luta de ser mulher, querer amar e ser viva livremente, criando seu próprio caminho. Saindo de lá, correu atrás do romance de Ibsen, para conhecer sua musa Nora mais de perto. Devorou a peça ainda na rua. Olhou em volta e se perguntou como e onde estava sua porta a bater. A resposta não veio imediata, mas já se encontrava nela.

E, então, no dia seguinte, aquele ser derrubado no chão encontra seu caminho. O movimento do corpo retorna ao eixo. A história revivida na mente, a liberta. A jibóia se move para fora de sua própria armadilha. Levanta do chão e sai para a vida, de peito aberto e a voz pra fora. Bate a porta!




São Paulo, 19 de dezembro de 2015



20 de dez de 2015

Com a TPM por dentro

Hoje eu sou quem eu fui um dia, uma menina de pé descalço, com vontade de entrar na água, de descer e subir em árvore, de pegar peixinho, brincar pertinho. Sou a mesma que ficou pra trás, sou aquela que eu nunca deixei jamais. Finalmente sei que o que tenho é tudo que preciso, que amo quem me faz cem. As palavras bonitas me caem bem, dar presentes também. Gosto de dançar, quase não paro de falar, minhas amigas são do peito, minha família muito respeito. Ouço as histórias das avós, sei que não sei de nada. Um dia eu volto pra escola, mas agora, eu quero a lição da vida. Ouço muito minha mãe, brinco tanto com meu pai... Gosto de Tom, gosto de mim, gosto de um baú cheio de mistérios. Quero aprender tarô, e espero muito um senhor de alma inteira, mão faceira e um sorriso largo só pra mim. Hoje quase chorei na esquina, me sinto meio menina e um pouco nada arrependida. Ah, gosto muito de escrever, palavras me caem bem. Quero muito ser doutora, quero muito cantar pro meu amor. Gosto de praia, gosto do sol, me atiro no mar, me envolvo demais, com o drama, com a cama, com pesadelos Se o imaginário vai bem não há o que temer. Não quero ser louca, mas não me privaria da insanidade. Quero ser rica, mas por bondade, não desejo nenhum consolo, não quero ter medo de partir.
Me desculpem
estranhos,
Mas beleza é fundamental.

Não importa a grana
Criatividade me encanta.
E se tiver que me pedir um cheiro,
peça no canto.

No quarto dele, dependurados
ventos se viam ouviam ao longo.
Na gaveta um lenço,
na sua mão eu me perdia.

Eu não era.
Sentia o ar
Denso
Ardência.

Acende um incenso.
Acende outra vela
Apaga essa luz
E me conta disperso
uma história de amor.

Outro dia fui no alto.
Vi um negro dando a volta na encosta.
O sol na pele, um cão sem cela.
Vi um olhar no fim do meio.

Te abracei e te ouvi.
Ouvi no peito.
Sentei na pedra
Fui pra longe
E fiquei sem espera.

Não sei o que sei.
Sabe o que falou?
Nada, nada sei.
Já pensou em falar
a língua do louco?
Ou o verbo infame das prostitutas
do antro de paz e de sonho?

Sorri, e vem aqui.
O que é o que é:
vida?
Qual é a pergunta que nunca se fez?

Tropecei.
Foi algo que falei?

Olhei e era 11 e trinta e três.
E com a resposta você já sumia.

Eu te entendo, amado da vez.
Você disse que numa hora saia,
Se despedia da ilha
E numa nave partia.

.........

E lá fora,
amiguinho,
como anda você lá fora de você?
Queria saber, mas não pago pra ver o que não gosto.
Prefiro o que já foi.

O fim subiu...
A luz havia sido forte,
O grito ainda estancado
E eu por dentro arfava.

E esse,
É esse,
É isso!

Um clarão aberto
Uma lacuna velha.

Mas bela, bela,
Terei tudo quanto quero.

E você carne invisível ainda?
Alma perdida e minha,
Você que é igual a mina
que todo dia se saculeja em mim.
Você já vem, não vem?
Vem já,
Vem cá
Cá já...

Porque aqui o não, não há.
Porque meu céu é um furacão.

Só não demora,
Não me consolo,
Sem seu colo.

17 de dez de 2015

Abriu minhas frestas,
minhas arestas,
minhas feridas
e saiu sem agradecer
e sem se desculpar.

18 de ago de 2015

Vontades aleatórias
de pintar, de colar
de estar.
Saudade da folia
Ou é mesmo o que não muda.

E acabo por deixar a melancolia colar
Só para sair por ai...
buscando belezas que rompem as torneiras das lágrimas da magia.

24 de jul de 2015

I am the only with the ligth.
Every body sleeps in the fligth
while I write poems in my mind.

9 de mai de 2015

Sonho

Hoje eu tive um sonho mágico. Sonhei que voava dentro de uma casa linda, com um pé direito bem alto, um jardim interno, paredes de mármore. Estava nua. Dava uns mergulhos imensos no ar segurando uma flor, semi-despedaçada, mas que filtrava a luz que vinha do ambiente e deixava um rastro de raios coloridos. Estava consciente que meu olhos precisavam captar aquela cena. Por um momento tive que me esconder de um homem que entrou - ele não me via lá em cima. Além de nua, e no ar, fazia algo que não lembro, mas que não podia. Fugi... Ninguém me viu.

De Florbela Espanca - Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"

3 de mai de 2015

Lilith II

Tocou de leve meus dois biquinhos ao mesmo tempo,
num movimento organizado.
Em um equilíbrio de prazer sincronizado.

Fez correr assim
dois rios de energia gêmeas
pelas laterais sutis do meu universo.

Fagulhas de amor
que agora se repetem
toda vez que minha mente àquele instante
me remete.

Suspeito que foi toque estudado,
pra irrigar meu viver
e me fazer parar jamais de te querer,

23 de fev de 2015

Não me curo parada,
sou de aquário.

1 de out de 2014


Rolei escada abaixo. Você me estendeu a mão, e eu não peguei.
Você saiu da minha vida, de fininho, e eu já não tinha mais mão para pegar.

E ainda não sei se foi Deus ou o Diabo que me tirou de você, que tirou você do meu caminho.

Seria paixão fervente, seria paixão da terra, seria paixão para sempre? Ou fogo ralo que acabaria rasteira?

Ontem eu era dor, a meia distância de você. Hoje sou saudade, há léguas do seu silêncio.

Tenho paz mais fácil, mas o Diabo faz uma falta danada.

30 de ago de 2014


Amazônia pulsa, imprensa o peito e faz arfar. Amazônia pressiona e faz chorar. Rio que corre sem pressa, e leva pra dentro, lava o fundo. Liberta com dor.

Beleza que foge do peito.
Amor que sai para fora da palavra.