25 de dez de 2009

Palavras pro Natal

Se aceitarmos pôr nas mãos do Menino divino as nossas, se respondermos «Sim» ao seu «Segue-me», então seus seremos e o caminho ficará livre para que Ele nos passe a sua vida divina. Assim é o início da vida eterna em nós. Não é ainda a visão beatífica na luz da glória, é ainda a obscuridade da fé; mas já não é a obscuridade deste mundo – é estarmos já no Reino de Deus.

Santa Teresa Benedita da Cruz [Edith Stein] (1891-1942), carmelita, mártir, co-padoreira da Europa.

10 de nov de 2009

O Bobo

O bobo por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando".

Clarice Lispector

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.




Cecília Meireles

15 de set de 2009

Zaratustra

"Esta coroa do ridente, esta coroa grinalda-de-rosas: a vós, meus irmãos, eu vos atiro esta coroa! O riso eu declarei santo: vós, homens superiores, aprender - a rir!"


(Assim falou Zaratustra - quarta parte)

8 de mai de 2009

Rito do dia

Na décima segunda casa,
seguindo pela estreita margem
do lago que a cidade encobre,
regia a família uma estrela virgem.
A mais nova e justamente a mais nobre.

Quem de longe ou de mais aproximado a notasse,
talvez se pusesse a parar por despercebido prolongado tempo.

A varrer, a ler, a pentear;
fosse feito que fosse,
era de se pasmar.

Serena,
tudo dela era bordado.

Figurava ritual e parecia que sabia,
sem saber ou sem querer,
que divindade está mesmo camuflada no disciplinado afazer do dia-a-dia.
Sempre repleto de infindáveis detalhes
repetidamente a entreter.

A notava,
todavia,
só aquele que,
igualmente,
ao espaço e ao tempo,
se rendia.

5 de mai de 2009

Oferendas invertidas

Brilhos, cintilantes.
Detalhe no canto dos olhos.
Altos saltos, belas peças.
Pendura mais um ferro na orelha.
Pigmenta a cútis com desejos.

Vira num gole uma taça de conhaque.
Dança com ele até embaixo.
Sobe como outra em desencargo.

Som da caixa estalando.
Trompetes.
Sirenes.
É tudo agudo.
Aguça.
Nada de recusa.

Mergulha no barro,
Vira lama,
Germina flores.
Se traduz em Terra.

Desfaz.
Refaz.
Disfarça.
Sou substituta de mim mesma,
Às vezes e
por vezes.
Revezo egos aleatórios.

É capital.
O fútil nos desarma.
Nos rebaixa.
Nos amarra a redes estéticas avançadas.

E é tudo oferenda.

Ofereço a Diana Lucrecia,
as bacantes,
a Ogum.

Espirro de tinta borrada na camisa mal usada.
Gargalhada louca depois do fim do jogo.
Determinados deuses isso cobiçam.

Agradecem.
E nos emprestam,
veja só,
genuína sabedoria apolínea.

15 de abr de 2009

Água!
Que nasce de um peito que se afoba
e pernas que revezam.
Sossega o zunzunido de vocais internos repetidos.

Me faz público da ave.
Alvoroçada pelo fim da tarde.
E espectadora da nuvem,
que pra lá do fim desanuvia.

Sinal claro de um espírito que
se expande,
em um corpo,
que então descansa.

Sentada à porta de uma grande casa,
não seco o suor na blusa rasgada.
O resguardo.
Ainda quero que resfrie meu rosto
quando a colina descer
e um vento tímido a ladeira subir.

Sei que vou rir.
Pois ao fundo,
depois de tudo,
o dia vai ter cabo
em tom alaranjado.

23 de mar de 2009

De volta ao futuro

Ela tem uma filha, linda. Mas a vida não está tão fácil: indecisões, falta de solução, de rumo, de perspectivas e o pai da filha oferecendo um futuro, só que ela sem saber se segue junto. Pra aliviar, entre uma tarefa e outra, um cigarro, um pensamento fragmentado, uma decisão não sustentada. A força da leoa parece um pouco diminuída, apesar de ainda rugir forte lá de dentro.

E num suspiro e outro, imagens emotivas do primeiro amor – correspondido –, mas interrompido bruscamente por ela mesma. Tinha 13 anos e foi namorar e gostar de um “geninho” de olhos calmos e sorriso claro, que lia gibi pra ela com as pernas dobradas na cadeira, na hora do jantar. Eles brincavam de jiu-jitsu na beliche e, depois que ela ia, ele devorava o livro do Word, só por prazer. Demorou um certo longo tempo pra tentar avançar o sinal, dando chance para ela querer demais...

E Clarice queria muito. Queria ir ao baile funk de shortinho, paquerar na praia a galera do bairro, queria viver o agora e o já, tinha talento pra brilhar entre vários. Era fogo queimando por lá e a pele se acalmando ali.

Ela acabou optando pelo fogo.

E isso foi há tanto tempo atrás... Mas nos últimos dias, entre uma fumaça e um “mamãe vem cá”, o pensamento de ter trocado o cavaleiro original por um moleque bombadinho, na primeira noite da sua vida, lhe fazia mal. “Troquei amor por tentação”, pensava. “Conclusão póstuma, conclusão inútil”, diria a mãe. Mas isso, agora, pouco importava, o mal estar já estava instalado.

O telefone toca, espalham-se pelos ares os devaneios da jovem mãe: “E aí, já viu o vestido? Vem pra cá se arrumar!” – dispara a amiga do outro lado da linha.

“Tá, estou indo, já vou” – respondeu meio desanimada. O casamento para o qual se direcionariam em poucas horas, tinha ficado um pouco mais distante que as lembranças do passado.

“Se anima, prima, teu amorzinho antigo vai estar lá. Planejou tanto esse encontro, esqueceu?”. Naquele momento, nem a idéia de encontrá-lo era instigante. O que ela queria era uma máquina do tempo. Só isso serviria. Dava muito trabalho pensar numa solução para frente. “Será que eu vou mesmo?” – pensou.

Foi.

Todos os olhos fixados na porta da igreja. O vestido branco, os salgadinhos deliciosos e os embalos da sexta à noite no meio do salão; logo foram libertando demônios e dionísios. E ele - o primeiro amor relembrado - já estava ali fazia tempo. Acompanhado, é claro; da mulher, é lógico. Mas, depois de uma leve alteração provocada pelo teor alcoólico do champagne, ela decidiu resgatar a Clarice que nunca ficava na vontade, nem tinha medo de nada.

Aproveitou a saída da rival e no meio do salão foi falar com o velho amigo. Ela balançava o cabelo discretamente e ele disfarçava o olhar de satisfação. Ninguém via, mas qualquer um notaria. E, logicamente, depois de falar como tinha sido burra aos 13 anos, não deixou de propor um encontro. Por pouco não ouviu a resposta. Do outro lado da pista, veio chegando um furacão loiro, pro resgate da propriedade privada: era a atual dele no seu um metro e oitenta de intimidação. E Clarice ficou um tempinho assim, sei lá... Teve que se afastar.

Mas logo se reergueu e voltou para ouvir o não ou o sim, ela não ia deixar aquele ponto sem nó.

Teve, ainda, que ouvir umas chatices da “outra”, mas contornou a situação com certa classe "calma querida, não posso conversar com meu amigo, não?"

Voltou pras amigas com um sorrisinho maroto e a sensação de estar nas nuvens. Amanhã seria o dia.

A festa acabou, o outro dia chegou! A cabeça pesava demais e o coração tava gelado de ansiedade.

Depois de passar a manhã com a filha, pegou o celular... Ainda tinha o contato daquele amor antigo, era só ligar, já tinha recebido o aval.

Mas quando foi apertar o botão, alguma coisa disse não: “Acorda, Clarice!”.

Mais um toque e ligou pro outro, o atual. Um programa em família seria melhor.

Apagou o cigarro, sorriu pro espelho, mas quem falou que a cabeça parou de reinventar o passado?

22 de mar de 2009

Pelas Suas mãos

Me achei!
Exatamente onde estava.
Parada.
Atenciosamente atenta
à luz verde
que escorregava pela coluna
e me conduzia até a lua.

15 de mar de 2009

"O artista não tem nenhum direito a uma idéia com a qual não esteja socialmente comprometido, ou cuja realização possa implicar uma dicotomia entre sua atividade profissional e os outros aspectos da sua vida".

"O trabalho de um artista só se justifica quando é crucial para a sua vida: quando não é uma ocupação passageira, mas sim a única forma de existência para seu 'eu' reprodutor"

Tarkovski (Esculpir o Tempo)

13 de mar de 2009

Entrou no cinema afobada.
Queria fugir de si.

Fugiu do cinema
e, novamente,

caiu em si.

(Doía a existência sem rumo)

...
Soltou!

Aceitou o nada.
(O caminho se faz ao passar)

Se livrou do fosso.
Entrou em si
Visualizou o topo.