4 de set de 2013


Visões da cidade


Luzes da cidade.
Idade que vai passar.
Memória que busco salvar.

E se o tempo hoje novamente o vento não trará,
trato logo de evitar seu afogamento natural,
dado não ser banal lembrar que só por hoje há o que no hoje há.

E o carona me concede assento
O banco de trás me espana o olhar.
É o lar de quem curte dança de olhos
por belezas fundidas entre sombras, monstros, dissonâncias urbanas, babilônicas
- Estranhas organizações estéticas:

"Um chafariz memória jorrava água
- água se fez varal, gotas meros trapos.
E o chafariz se impôs presente.
Suplicou retrato.
Tirei com as sinapses ativas.
E ali mais adiante
uma pintura horizontal que se finge mendigo
da rua do Glória pra se fazer lembrar,
logo corta em edição real prum mendigo carnal
que se camufla em tinta de asfalto pra se fazer esquecer.

Registros que ficam pra rever."

Metamorfoses industro-comércio-naturais
que, tal qual recifes coloridos,
não são mais que mosaicos de resíduos que se atraem.

É a cidade.
Conturnabanizações e sumaposição.
E é bela, bela, bela!
De tão feia e suja.

Pois que é beleza que não se expoem apenas se 'intro'poem.
Crescendo pra dentro.
- E se crescesse pra fora que diferença faria?
Estou engolido por ela, só vejo do útero, só entendo de dentro.
E de perto, bem perto, bem íntimo.
Sinto o bafo da cidade, escuto-a ofegar.

E quem não faz? Tá todo mundo perto.
E normal quem é visto tão tet a tet ?

Por isso tão fácil julgar tão feia, distoante,
intoxicante essas luzes que me cruzam,
esses muros que me chutam.

Mas agora, nesse caminho a três,
à beira de um centro iluminado a poste e faróis
repleto de ratos e embrulhos de caixotes, estico o fino do olhar.
Sem tirar os pés do chão molhado de sujeira de tempo me afasto da cidade,
olho minha devoradora por inteiro.

O caos então, e nem um pouco em vão, revela que é sim sintonia.
O mal se vira e diz "sou bem!"
A dança catártica que dançamos desnuda seus passados arquitetados.
Afinal... por que o mundo perderia tempo sem conceder uma valsa a si mesmo?

(Cheguei a casa da avó sem ela saber e no momonto exato que no monitor minha imagem selada a encarava).

(São luzes que aqui se acendem enquanto três sinetas em escala se empostam. Sincronias de curtas metragens.)

(E essa dança é também eu sonhando contigo enquanto você repete a um qualquer conversa rara que a tanto tempo tivera comigo. E é algum tempo depois, você cruzando a calçada e eu viajando no ônibus que te fecha o percurso. Enquanto lá longe alguém filosofa que sem nenhum esforço tudo caminha, inevitavelmente, pro seu ponto de encontro.)

Foram as luzes da cidade
e essa idéia de que a idade vai passar
e que a memória deve ficar junto com a imaginação que deve aguçar.

Pois tudo que aqui não agrada, agride,
de mais alto é coreografia, aquarela, sonata.

É extase virando a terra em céu - transmutação e a cabeça pro pé

- reverência!
Estão torturando a carteira!
Primeiro arrancaram seus pés.
E há muito, coitada, não consegue se erguer.
Perdeu a base, perdeu a fase de aprender a caminhar sozinha.
Agora cortam-lhe os braços. Sem nenhum pudor.
Cortam-lhe os meios de, mesmo sem pernas, conseguir voar.
Sobra-lhe a madeira reta,
fácil de pisar.
Fácil de usar.
Fácil de empilhar.
Bem mais simples de vender.
Só para que cheguem aonde ninguém precisa chegar.
Só para que possam o que ninguém precisa poder.
Mas eles querem esse poder e parecem conseguir.
Vão subindo em cima das fracas carteiras, das fracas escolas, do fraco saber.
Vão subindo em cima de nós.
E assim,
acreditam chegar bem perto do céu
- não para encontrar algum deus,
mas só para, coitados, se tornarem reis.

Perdoamos? Já que se sabe mal do homem essa ideia de querer sempre mais.
Ou avançamos? Já que é um bem do homem do conhecimento ir atrás.