28 de out de 2006

Vai, guri, atravessa a rua montado em eu carrinho de brinquedo. O boneco do outro lado se vestiu de verde. E essa vida agora aponta um sim. Vai, guri, você é pequeno, mas para entender já está pleno. E essa vida agora te entrega as regras. Mas, ouve guri: Seja guri quando o é. Não arrastes o tempo pra além do tempo dele. Não sejas velho à procura de verdes sinais externo. Não sejas homem menino, procurando olhos mãos de mamãe. Não merece pisar pegadas dadas, atravessar na faixa indicada, quando o tempo não for mais este. Por isso desde já vai, atravessa na faixa, espera o sinal, enquanto eu te olho daqui. Mas já agora vai sozinho!
E eu lá vou discutir o que é Deus,
com licença, amigo,
À Deus!
Escuridão fértil

A felicidade

assusta

em surtos


e as  guar
do

como t r e p i d a n t e s fotos

Não há nela enredo, continum, novelo

É frag mento


poes ia concreta,

ex certos

Mas chega o dia que sentada na pedra cinza chumbo do rio
com a mão molhada em prata de uma lua alta
recolho a felicidade de seus vôos solto.

Monto em mim sozinha
meu Quebra-cabeça
e ao fim
vejo que mesmo assim não há ainda história única,
não há sequer um conto só.

Há apenas a imagem de um céu da noite
pipocado de estrelas
que ligo como a brincadeira pede
e apenas se a brincadeira é esta.

E no fundo
a escuridão
-meu próprio não-

de onde todas as fotografias são

e v ã o

26 de out de 2006

Visões da cidade

Luzes da cidade.
Idade que vai passar.
Memória que busco salvar.

E se o tempo hoje novamente o vento não trará,
trato logo de evitar seu afogamento natural,
dado não ser banal lembrar que só por hoje há o que no hoje há.

E o carona me concede assento
O banco de trás me espana o olhar.
É o lar de quem curte dança de olhos
por belezas fundidas entre sombras, monstros, dissonâncias urbanas, babilônicas
- Estranhas organizações estéticas:

"Um chafariz memória jorrava água
- água se fez varal, gotas meros trapos.
E o chafariz se impôs presente.
Suplicou retrato.
Tirei com as sinapses ativas.
E ali mais adiante
uma pintura horizontal que se finge mendigo
da rua do Glória pra se fazer lembrar,
logo corta em edição real prum mendigo carnal
que se camufla em tinta de asfalto pra se fazer esquecer.

Registros que ficam pra rever."

Metamorfoses industro-comércio-naturais
que, tal qual recifes coloridos,
não são mais que mosaicos de resíduos que se atraem.

É a cidade.
Conturnabanizações e sumaposição.
E é bela, bela, bela!
De tão feia e suja.

Pois que é beleza que não se expoem apenas se 'intro'poem.
Crescendo pra dentro.
- E se crescesse pra fora que diferença faria?
Estou engolido por ela, só vejo do útero, só entendo de dentro.
E de perto, bem perto, bem íntimo.
Sinto o bafo da cidade, escuto-a ofegar.

E quem não faz? Tá todo mundo perto.
E normal quem é visto tão tet a tet ?

Por isso tão fácil julgar tão feia, distoante,
intoxicante essas luzes que me cruzam,
esses muros que me chutam.

Mas agora, nesse caminho a três,
à beira de um centro iluminado a poste e faróis
repleto de ratos e embrulhos de caixotes, estico o fino do olhar.
Sem tirar os pés do chão molhado de sujeira de tempo me afasto da cidade,
olho minha devoradora por inteiro.

O caos então, e nem um pouco em vão, revela que é sim sintonia.
O mal se vira e diz "sou bem!"
A dança catártica que dançamos desnuda seus passados arquitetados.
Afinal... por que o mundo perderia tempo sem conceder uma valsa a si mesmo?

(Cheguei a casa da avó sem ela saber e no momonto exato que no monitor minha imagem selada a encarava).

(São luzes que aqui se acendem enquanto três sinetas em escala se empostam. Sincronias de curtas metragens.)

(E essa dança é também eu sonhando contigo enquanto você repete a um qualquer conversa rara que a tanto tempo tivera comigo. E é algum tempo depois, você cruzando a calçada e eu viajando no ônibus que te fecha o percurso. Enquanto lá longe alguém filosofa que sem nenhum esforço tudo caminha, inevitavelmente, pro seu ponto de encontro.)

Foram as luzes da cidade
e essa idéia de que a idade vai passar
e que a memória deve ficar junto com a imaginação que deve aguçar.

Pois tudo que aqui não agrada, agride,
de mais alto é coreografia, aquarela, sonata.

É extase virando a terra em céu - transmutação e a cabeça pro pé

- reverência!

25 de out de 2006

Desconfio ser a
bendita necessidade
parteira do desejo
e mãe da vontade.
Imaginação,
essa não.

18 de out de 2006



Ilha de Marajó - Joanes
Quanto mais amor
mais esvazio.

Presa a um nome que me amortece.

Pronome escasso em tantos sítios,
abunda em constância nesse assovio.
Neste e tantos outros soprados nessa terra,
que juntou tudo, cruzou tantos,
e deixou léguas de águas pra lembrança.

- Saudade, saudade, trás de volta quem já veio,
deixou um cheiro, um aperto, um selo de enternidade que em mim não cola mais.

Ou então, me ensina
bloquear o peito
quando em chama quer ir tão longe buscar quem avuou.

Mas contar contigo é te coroar senhora, não é?

Contra esse amor vejo que só
curo a dor
com dedo de pé, bico de peito e retina acesa
apontados e alegres pro bem em frente,
quase rente.

Creio que só assim
o que foi não se sacode mais em mim.

Mas como cansa.....

Confesso que prefiro pensar que a volta existe.
Me vale um sonho.

Mas como queima......

14 de out de 2006

"Do rio que tudo arrasta se diz violento,mas não se diz violentas as margens que o oprimem". (Bertold Brecht)

4 de out de 2006

No papel só o que ilumina
só o que quer passar.
O que volta que fique por lá,
que fique calado!