11 de nov. de 2011

Mirante da banheira

O céu se entrelaça com a água.
Nesse lago raso o olhar mergulha pra subir.
Meu umbigo acolhe solitário vôo pássaro.
A pele se tinge dessas nuvéns.

(O mundo é fundo, a verdade evapora)
Me afundo pra voar na superfície imersa nas alturas.

Nesse silêncio,
vou traçando trilhas no passado - é fundo de mim -
na luz desse presente - estão meus olhos abertos -
em busca de um futuro - esse azul é pra sonhar.

Meu amor,
ao seu lado tudo se condensa
Nosso laço de altos cumes, profundas vales,
não quero que se vá.

21 de nov. de 2010

Sementes na chuva

Fico rebubinando a mente até a infância.
O som do trem ressoando...

Penso que deveria
ter sido olímpica,
Mas insisti em fazer nado,
e de nada me adiantou.
Não amava, não queria,
mas insistia
Em fazer o que o coração não pedia.

Hoje temo que a voz dele ande fraca.
Procuro conversar, mas será que se ressentiu de tantos nãos.

Fico torcendo para ele me engambelar,
me levando sem que note pro alto da pedra.
Bem na hora que o sol se derrete no mar, só pra me ver dançar.

(E ele faz... Já fez e ainda fará)

Pensando bem, acho que posso acreditar
que afinal tudo aquilo que amo naturalmente vem pra mim.

Semente que brota na mata, não precisa de rega,
precisa de chuva e chuva quem controla não sou eu.

Querendo ou não a vida faz meu coração florir.

26 de mai. de 2010

Astrologia experimental

Sintam os planetas dentro de si, eles são deuses para serem adorados, sintam o sol, a lua, etc. Devagar. Sintam Áries, Touro, etc. Devagar. Durmam com eles. A compreensão virá aos poucos. Não se deve compreender somente pela mente, é preciso compreender com todo o seu ser.

Envolvam-se com os signos e planetas e eles virão conversar com vocês quando vocês os chamarem e lhes contarão segredos.

18 de fev. de 2010

A companhia

"- Não, eu não te deixava por isto. Mas mete uma coisa na tua cabeça, Pedro Ribeira Flores: eu não estou aqui para que te cases comigo. Não ando à procura de noivo nem de casamento. Estou contigo porque gosto da tua companhia, gosto de estar contigo, por mais diferente que nós sejamos - e somos." (Angelina, do livro 'Rio das Flores', de Miguel Souza Tavares)

15 de fev. de 2010

Meditação no meio de todos

Pousada na pedra com
os olhos meio abertos pro sol:
Os cílios são asas translúcidas;
Cortina de renda filtrando olhos alheios.

Uma libélula encosta
no ombro que virou rocha.
Ela tem olhos negros,
É leve, é viva.
Por ali fica.

Os excessos se ausentam.
E o caminho se lapida.
Sou acolhida pelo meio.
E abraço todo o instante em mim.

Pra isso,
válido se fazer calmo.
Ouvir voz que não se altera,
jamais se ausenta
e sempre integra.

Mas atenta!
Batuque lá fora
distrai o coração.
E o corpo se agita.
Perde-se a nota.
E a outra já voou.

É o erro, o vacilo,
o esquecimento de ser.
Mas nada invalida a lição.
Reconecte-se!
E outros deuses te acharão.

13 de fev. de 2010

Para uma amiga

O dia 12 encosta,
O 13 aporta,
A arte inaugura.
É conto de amiga.
Companheira madura nas palavras.
Aniversariante lapidadora da magia.

Acolhedor assistir o desabrochar de uma poeta,
folha a folha,
como ano a ano.

A leitura conduzindo a oníricas pinturas dos dias.
E ao suave dançar dos olhos.

Tradução do que é próprio do nosso tempo,
do nosso espaço,
das nossas buscas.

Poesia com gosto de lá em casa.
E de mãos dadas com o céu.

25 de jan. de 2010

A vida sabe mais de nosso sonhos

"Era um ótimo instrumento. Achei que traria uma grande virada na minha vida. Mas, estranhamente, livrar-me do Violoncelo foi um alívio. Eu me senti livre dos laços que me haviam amarrado por tanto tempo. O que sempre havia considerado meu sonho, talvez, na verdade não fosse"

Do filme "A Partida" de Yojiro Takita

21 de jan. de 2010

Cerejas

Véus coloridos:
Rosas,
Verdes,
Laranja,
Agora permitidos.

A beleza foi concedida por lei.

Brilhou uma luz feminina.
Enfeites.
Libertou uma deusa escondida.

Que eles construam os muros.
Nós o pigmentamos.

Não serve apenas a massa.
Nosso gênero concede o tempero.
Que emoção viria sem ele?

Se ele é útil,
Somos as cores e perfumes das flores.
Pode-se dizer fútil.
Mas detalhe nenhum vem em vão.

25 de dez. de 2009

Palavras pro Natal

Se aceitarmos pôr nas mãos do Menino divino as nossas, se respondermos «Sim» ao seu «Segue-me», então seus seremos e o caminho ficará livre para que Ele nos passe a sua vida divina. Assim é o início da vida eterna em nós. Não é ainda a visão beatífica na luz da glória, é ainda a obscuridade da fé; mas já não é a obscuridade deste mundo – é estarmos já no Reino de Deus.

Santa Teresa Benedita da Cruz [Edith Stein] (1891-1942), carmelita, mártir, co-padoreira da Europa.

10 de nov. de 2009

O Bobo

O bobo por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando".

Clarice Lispector

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.




Cecília Meireles

15 de set. de 2009

Zaratustra

"Esta coroa do ridente, esta coroa grinalda-de-rosas: a vós, meus irmãos, eu vos atiro esta coroa! O riso eu declarei santo: vós, homens superiores, aprender - a rir!"


(Assim falou Zaratustra - quarta parte)

8 de mai. de 2009

Rito do dia

Na décima segunda casa,
seguindo pela estreita margem
do lago que a cidade encobre,
regia a família uma estrela virgem.
A mais nova e justamente a mais nobre.

Quem de longe ou de mais aproximado a notasse,
talvez se pusesse a parar por despercebido prolongado tempo.

A varrer, a ler, a pentear;
fosse feito que fosse,
era de se pasmar.

Serena,
tudo dela era bordado.

Figurava ritual e parecia que sabia,
sem saber ou sem querer,
que divindade está mesmo camuflada no disciplinado afazer do dia-a-dia.
Sempre repleto de infindáveis detalhes
repetidamente a entreter.

A notava,
todavia,
só aquele que,
igualmente,
ao espaço e ao tempo,
se rendia.

5 de mai. de 2009

Oferendas invertidas

Brilhos, cintilantes.
Detalhe no canto dos olhos.
Altos saltos, belas peças.
Pendura mais um ferro na orelha.
Pigmenta a cútis com desejos.

Vira num gole uma taça de conhaque.
Dança com ele até embaixo.
Sobe como outra em desencargo.

Som da caixa estalando.
Trompetes.
Sirenes.
É tudo agudo.
Aguça.
Nada de recusa.

Mergulha no barro,
Vira lama,
Germina flores.
Se traduz em Terra.

Desfaz.
Refaz.
Disfarça.
Sou substituta de mim mesma,
Às vezes e
por vezes.
Revezo egos aleatórios.

É capital.
O fútil nos desarma.
Nos rebaixa.
Nos amarra a redes estéticas avançadas.

E é tudo oferenda.

Ofereço a Diana Lucrecia,
as bacantes,
a Ogum.

Espirro de tinta borrada na camisa mal usada.
Gargalhada louca depois do fim do jogo.
Determinados deuses isso cobiçam.

Agradecem.
E nos emprestam,
veja só,
genuína sabedoria apolínea.

15 de abr. de 2009

Água!
Que nasce de um peito que se afoba
e pernas que revezam.
Sossega o zunzunido de vocais internos repetidos.

Me faz público da ave.
Alvoroçada pelo fim da tarde.
E espectadora da nuvem,
que pra lá do fim desanuvia.

Sinal claro de um espírito que
se expande,
em um corpo,
que então descansa.

Sentada à porta de uma grande casa,
não seco o suor na blusa rasgada.
O resguardo.
Ainda quero que resfrie meu rosto
quando a colina descer
e um vento tímido a ladeira subir.

Sei que vou rir.
Pois ao fundo,
depois de tudo,
o dia vai ter cabo
em tom alaranjado.