15 de abr. de 2009

Água!
Que nasce de um peito que se afoba
e pernas que revezam.
Sossega o zunzunido de vocais internos repetidos.

Me faz público da ave.
Alvoroçada pelo fim da tarde.
E espectadora da nuvem,
que pra lá do fim desanuvia.

Sinal claro de um espírito que
se expande,
em um corpo,
que então descansa.

Sentada à porta de uma grande casa,
não seco o suor na blusa rasgada.
O resguardo.
Ainda quero que resfrie meu rosto
quando a colina descer
e um vento tímido a ladeira subir.

Sei que vou rir.
Pois ao fundo,
depois de tudo,
o dia vai ter cabo
em tom alaranjado.

23 de mar. de 2009

De volta ao futuro

Ela tem uma filha, linda. Mas a vida não está tão fácil: indecisões, falta de solução, de rumo, de perspectivas e o pai da filha oferecendo um futuro, só que ela sem saber se segue junto. Pra aliviar, entre uma tarefa e outra, um cigarro, um pensamento fragmentado, uma decisão não sustentada. A força da leoa parece um pouco diminuída, apesar de ainda rugir forte lá de dentro.

E num suspiro e outro, imagens emotivas do primeiro amor – correspondido –, mas interrompido bruscamente por ela mesma. Tinha 13 anos e foi namorar e gostar de um “geninho” de olhos calmos e sorriso claro, que lia gibi pra ela com as pernas dobradas na cadeira, na hora do jantar. Eles brincavam de jiu-jitsu na beliche e, depois que ela ia, ele devorava o livro do Word, só por prazer. Demorou um certo longo tempo pra tentar avançar o sinal, dando chance para ela querer demais...

E Clarice queria muito. Queria ir ao baile funk de shortinho, paquerar na praia a galera do bairro, queria viver o agora e o já, tinha talento pra brilhar entre vários. Era fogo queimando por lá e a pele se acalmando ali.

Ela acabou optando pelo fogo.

E isso foi há tanto tempo atrás... Mas nos últimos dias, entre uma fumaça e um “mamãe vem cá”, o pensamento de ter trocado o cavaleiro original por um moleque bombadinho, na primeira noite da sua vida, lhe fazia mal. “Troquei amor por tentação”, pensava. “Conclusão póstuma, conclusão inútil”, diria a mãe. Mas isso, agora, pouco importava, o mal estar já estava instalado.

O telefone toca, espalham-se pelos ares os devaneios da jovem mãe: “E aí, já viu o vestido? Vem pra cá se arrumar!” – dispara a amiga do outro lado da linha.

“Tá, estou indo, já vou” – respondeu meio desanimada. O casamento para o qual se direcionariam em poucas horas, tinha ficado um pouco mais distante que as lembranças do passado.

“Se anima, prima, teu amorzinho antigo vai estar lá. Planejou tanto esse encontro, esqueceu?”. Naquele momento, nem a idéia de encontrá-lo era instigante. O que ela queria era uma máquina do tempo. Só isso serviria. Dava muito trabalho pensar numa solução para frente. “Será que eu vou mesmo?” – pensou.

Foi.

Todos os olhos fixados na porta da igreja. O vestido branco, os salgadinhos deliciosos e os embalos da sexta à noite no meio do salão; logo foram libertando demônios e dionísios. E ele - o primeiro amor relembrado - já estava ali fazia tempo. Acompanhado, é claro; da mulher, é lógico. Mas, depois de uma leve alteração provocada pelo teor alcoólico do champagne, ela decidiu resgatar a Clarice que nunca ficava na vontade, nem tinha medo de nada.

Aproveitou a saída da rival e no meio do salão foi falar com o velho amigo. Ela balançava o cabelo discretamente e ele disfarçava o olhar de satisfação. Ninguém via, mas qualquer um notaria. E, logicamente, depois de falar como tinha sido burra aos 13 anos, não deixou de propor um encontro. Por pouco não ouviu a resposta. Do outro lado da pista, veio chegando um furacão loiro, pro resgate da propriedade privada: era a atual dele no seu um metro e oitenta de intimidação. E Clarice ficou um tempinho assim, sei lá... Teve que se afastar.

Mas logo se reergueu e voltou para ouvir o não ou o sim, ela não ia deixar aquele ponto sem nó.

Teve, ainda, que ouvir umas chatices da “outra”, mas contornou a situação com certa classe "calma querida, não posso conversar com meu amigo, não?"

Voltou pras amigas com um sorrisinho maroto e a sensação de estar nas nuvens. Amanhã seria o dia.

A festa acabou, o outro dia chegou! A cabeça pesava demais e o coração tava gelado de ansiedade.

Depois de passar a manhã com a filha, pegou o celular... Ainda tinha o contato daquele amor antigo, era só ligar, já tinha recebido o aval.

Mas quando foi apertar o botão, alguma coisa disse não: “Acorda, Clarice!”.

Mais um toque e ligou pro outro, o atual. Um programa em família seria melhor.

Apagou o cigarro, sorriu pro espelho, mas quem falou que a cabeça parou de reinventar o passado?

22 de mar. de 2009

Pelas Suas mãos

Me achei!
Exatamente onde estava.
Parada.
Atenciosamente atenta
à luz verde
que escorregava pela coluna
e me conduzia até a lua.

15 de mar. de 2009

"O artista não tem nenhum direito a uma idéia com a qual não esteja socialmente comprometido, ou cuja realização possa implicar uma dicotomia entre sua atividade profissional e os outros aspectos da sua vida".

"O trabalho de um artista só se justifica quando é crucial para a sua vida: quando não é uma ocupação passageira, mas sim a única forma de existência para seu 'eu' reprodutor"

Tarkovski (Esculpir o Tempo)

13 de mar. de 2009

Entrou no cinema afobada.
Queria fugir de si.

Fugiu do cinema
e, novamente,

caiu em si.

(Doía a existência sem rumo)

...
Soltou!

Aceitou o nada.
(O caminho se faz ao passar)

Se livrou do fosso.
Entrou em si
Visualizou o topo.

17 de dez. de 2008

Ouvi a árvore me chamar.
Fui até lá.
Correndo contra buzinas e rodas engessadas.

Estou à margem.

Passos largos,
a árvore é chama.

Ondas radiofônicas
É leão do norte.
É passagem estética.

E nisso, chuva fina dá graça ao lá fora.

Li João Paulo.
É preciso santos que bebam coca-cola.

(Os ideais dificultam o dia).

Desce a negra do morro,
trás notícias sem dados lá do alto.

Registros da rua, catados no ar.

A polícia aterroriza.

E tem jaca no meio da estrada
- quem se importa

A jaca pedindo final digno
- quem a vê?

Comida gratuita...
(A história esqueceu essa possibilidade).

A moça pára o carro,
desce sorrindo,
leva a jaca pra casa.

Estou de fora
Garimpo miragens...
A cidade me serve.

15 de dez. de 2008

Papo modesto

Não estou para desabafos impensados,
floreados de interjeições teatrais.
Nem vim aqui contemporizar opinião,
deixando no meu pensamento
reticências às preferências alheias

Desejo o verso simples, assertivo.
Eloquência de um ponto final.
Verdade que descansa quem o disse,
e só assim o abre a ser ouvinte.

19 de nov. de 2008

Grande parte do caminho segue entoando mantras. Lhe alivia estar em movimento e nenhum músculo mexer. A meditação se faz mais fácil. A cidade vai passando, algumas incógnitas se desatando... Se sente na multidão, sem dela se embasbacar, nem ansiar para o seu porquê explicar. Apenas está lá.

E eis que de surpresa pega o caminho do mar e já não precisa rezar...

A onda bate.
Do verde escuro e da espuma branca - uma entidade verde,
Virgem lapidada.
Costas de onda curvas se entregando ao mar - jóias humildes.
Carícia no olhar.

Ao fundo, vindo do céu, um detalhe, em frações, se entrega às águas.
Poesia da caça...
Brilhantes se destacam na pele crua da onda que se alonga para em instantes quebrar.

Por favor, caminho, não quero parar...

Da janela vem um vento cheirando a ressaca.
Ele já não precisa rezar.
Mergulhou no silêncio entoado do mar,
ritimado pelas rodas do pneu a girar.

7 de nov. de 2008

Minhas armas de Jorge de lado deixei.
Julguei justo por um instante lavar
meus pés, as mãos, os pensamentos.

Me vi de repente o próprio inimigo
usando as armas que me destes
para te atacar
e não mais para nos defender.

6 de nov. de 2008

Me agrada caminhar de cabeça baixa
para num estalo do vento
levantá-la
e me deparar com um balé de folhas desgarradas.

30 de set. de 2008

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond

27 de set. de 2008

Professor: O que não vale a pena?
Ernesto: Ir à escola. (pausa). Não serve para nada. (pausa). Na escola, as crianças são abandonadas. A mãe põe os filhos na escola para que eles aprendam que estão abandonados. Assim ela se livra deles para o resto da vida. Silêncio. (...)


Professor: Então como é que se aprende?
Ernesto: Quando se quer aprender.
Professor: E quando não se quer aprender?
Ernesto: Quando não se quer aprender, não vale a pena aprender. Silêncio.

(Chuva de Verão - Marguerite Duras)

10 de set. de 2008

Por uma estética dos prazeres compartilhados

Sei dançar,
E quero um homem manso que saiba certo me olhar.
Num jeito que só olhos pingados da tranqüilidade de Deus podem fitar.

Você é puro.
Meu desejo, um broto.

Na testa, a febre.
No olhar, a prece.

A mão luva de lua larva.
A boca já não fala...

A música é nossa porta.
O céu, a nossa escola.

1 de set. de 2008

(Notificação de suspensão de dois dias - 25/08/1993)

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
(Cecília Meireles)
OBS: NÃO DEIXE A ESCOLA ATRAPALHAR A SUA EDUCAÇÃO!

14 de ago. de 2008

Outro poema antigo, esse feito para aula do João Moreira Salles em 2004. É sobre um filme/ Globo Repórter chamado Retrato de Classe. Era vésperas de me formar e eu estava cheia de perguntas na cabeça e muita vontade explodindo no peito...

Um Retrato Retocado

Falaram-me que o tempo passa
- invisível.
Vi que as pessoas se matam
- e continuam vivas.
Ouvi que os casamentos afogam
- e matam de sede.
E que os pais amarram os filhos
para que não voem.

Chorei por que tive medo
Por que tive certeza
Que é isso que querem que eu faça.
Sorri por que me lembrei que não!
Não é isso que eu quero que eu faça.

Não quero boiar
como a sementinha jogada no rio.
Nem me acabar na terra rachada e seca.
Quero brotar.

Disso um Retrato de Classe me fez lembrar...

Mas o meu retrato ainda quer ser diferente deste.
(No conteúdo e tanto na forma)
No conteúdo quer ser livre,
Não contrato.
Na forma quer ser poesia,
ponto de vista,
papel assinado embaixo.
Não discurso escondido,
sem nome,
absoluto - como um documento.

Mas minha vida de classe também quer ser igual ao Retrato.
(No conteúdo e tanto na forma)
No conteúdo também quer ser humano, demasiadamente humano.
Na forma, revolucionário, rompante
- como uma arte.