27 de jul. de 2008

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


(Manuel Bandeira)

11 de jul. de 2008

Morrer e nascer todos os dias. Ser verme e estrela, sem forçar a subida. Apenas olhar. Apenas amar a luz e a treva Assim nos fazemos. Só assim confiamos. Não existem linhas retas na natureza.

2 de jun. de 2008

Inspirador e direcionador dessa coisa louca que é escrever...
Um poema de Alberto Caiero...
Acordei hoje, peguei pra ler e sabia que ia encontrar uma resposta, pra uma pergunta que nem sei muito bem qual é, mas que me persegue sempre.

XLVI

Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal ou com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar de um corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caiero,
Mas um aninal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a natureza e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Unisverso
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.




Alberto Caieiro ou Fernando Pessoa

28 de mai. de 2008

Suave, suave
Delicadeza.

Muito esforço?
larga.
Muito pensar?
tenta mudar.

Se julgas de ti não gostarem,
por que não pensar
que o sentimento é mútuo?

Facilita,
desliga
desilude
liberta

pra fluir

e ficar com aquilo que acalma.

Nunca o que maltrata

8 de mai. de 2008

("Mas já!?")

...não disse...

Preferiu tecer comentário fútil sobre seus cabelos.

E do momento retirou só e tanto
alguns beijos no rosto,
um pouco do seu peso
e uma mão leve sobre a lateral da sua perna.

(Ah, em poucos dedos caberiam outros momentos sinceros como esse!)

Deitada no puff
Ficou muda
querendo que ele voltasse,
que o tempo parasse.

(E se gritasse?

Mas talvez a ansiedade se instalasse
e a beleza evaporasse...

"can get no satisfection?" )

Ficou surda,
um pouco puta...

(A TV não aprovaria essa atitude:
beija sapo, beija bafo, beija qualquer coisa, mas beija, beija, beija,
mesmo que no fundo não esteja inteira,
que não seja bem da sua maneira.)

Mas os versos vindo do alto dos prédios,
lhe restaram como remédio impresso.

E repetiu como mantra aflito e sincero:

(Nessa vida nada de bom vem com a pressa,
foda-se essa guerra!)

(...bem que ele podia voltar,
nem que fosse para emudecer ainda mais o momento
olhar a paisagem,
sentir o sensível,
ouvir o respiro,
tocando de leve a pele,
bem aos poucos,
com tal e qual naturalidade,
que esqueceria
certo e errados,
antes e depois.

E se viesse um beijo - se viesse...
nem haveria pensamento de beleza
só restaria o beijo,
inteiramente deles,
sem nem desejo de outros,
só o percurso leve do rio infinito daquele.)

17 de abr. de 2008

(Disse Leminsky)

Dia sem senso
acendi o cigarro
no incenso

____________________________________


(Vivenciei e adaptei...)

Dia com centro
acendi a ponta
na chama do incenso
Ao entrar,

respire







Ao sair,

revise

1 de abr. de 2008

O desejo



Primeira estrela,
faça o que desejo,
meu São Longuinho,
me devolva o que perdi.
Que seja amável e amante
e recupere, antes do fim, meu complemento.



Não sei muito ainda,
sigo trilhas,vigas,dicas,viagens,vontades.
É um rio rosa de água morna e morena.
É o impulso,
cheio de receios justos de medos,
de ver tocar um serpente verde e longa a minha porta.

É a luta na hora propícia da luta.
É a paz de se saber não devedor.
É essa energia rugosa de uma chapada bruta,
um quase labirinto de mistérios
repleto de gatos,
normalidades elevadas,
mentes anuviadas,vozes calibradas
e outras 'ganícias' enroscadas.

Vem, minha cara fé,
ficar como voz primeira nesse meu mundo escuro,
meio vulto, meio escuso.

Me livre desse refúgio covarde onde me protejo,
quando insana, daquilo que mais quero.
Preciso da sua força redentora.

Pois quero muito um curso liberto
que nos puxa pela mão
e faz o corpo ceder e subir ao céucomo fumaça.

(Chapada Diamantina)

19 de mar. de 2008

Escuridão fértil

Minha felicidade
me
assusta

em surtos

e a
guar
do

como em t r e p i d a n t e s fotos

Não há nela enredo, continum, novelo

É frag mento

poes ia concreta,

ex certos


Mas chega o dia que sentada na pedra cinza chumbo do rio
com a mão molhada em prata de uma lua alta
recolho minhas imagens de seus vôos soltos

Monto em mim sozinha
meu Quebra-cabeça
e ao fim
vejo que mesmo assim não há ainda história única,
não há sequer um conto só.

Há apenas a imagen de um céu da noite pipocado de estrelas que ligo como a brincadeira pede e apenas se a brincadeira é esta. E no fundo a escuridão -meu próprio não- de onde todas as fotografias são e v ã o

21 de fev. de 2008

De paulo Leminski...
deus
algum
indu
ogum
vishnu
precisa da tua prece
tua pressa pessoa
só teu pulso acelera
você padece
padecer te resta
tudo um belo dia desaparece
Vi um fundo de tela cinza escuro,
e rabiscado em preto um V de gaivotas.

Ouvi lá longe o vapor trazer a água,
pro olhar aqui de dentro se lavar.
E ver...
...o Ipê, que em pé se abriu.

É fevereiro, mês luz de brasa,
que chega feito raio palhaço,
e deixa risadas como rastro.

18 de fev. de 2008

21 de jan. de 2008

Não sei o que digo
nem a quem falo.
Desconfio,
somente,
que são palavras de lágrimas.

Agradeço,
no entanto.

Ao céu,
à terra,
aos anjos que me suportam
às mãos que me acalentam
aos ouvidos
que me entendem,
ou tendem.
A mãe
que me abraça, me trata, me indica...
A morte que me tentou,
sinal vermelho que me apontou.

Graças,
graças,
graças!

A vida, que tem me dado tanto.

Quero apenas seu canto,
peço saber cantá-lo.
Pros meus amores,
só pra quem eu falo
só pra quem me importares...

E o mundo me importa,
me encanta
e eu canto...

Ao dia,
à luz,
obrigada!
Sem vocês eu não seria nada.

Salve, salve
ao tempo
por me ensinar que é como o vento.

Passa, leva e trás...

Hoje é tudo,
ontem dói,
amanha,
sou só.

Aflinge ver essa beleza e nela ver-me não caber.
Por isso,
vamos aos poucos.
O peito não dá conta da torrente de amor eterno.

Por isso invento a morte,
pra enfrentar esse infinito.

Obrigado, pai,
por desconhecê-lo
e fazer da minha vida
sua busca,
nosso encontro.

Eu amo, ou
tendo...

Graças, graças, graças!

A vós,

aos meus a avós;
a todos os meus;
amigos, primos, queridos;
aos nossos nós
e um tanto mais a essa voz.
Que se afina, que se canta.
Me encanta a poesia divina dessa vida bendita.

E peço apenas:

- Me ensina...
Me desculpem
estranhos,
Mas beleza é fundamental.

Não importa a grana
Criatividade me encanta.
E se tiver que me pedir um cheiro,
peça no canto.

No quarto dele, dependurados
ventos se viam ouviam ao longo.
Na gaveta um lenço,
na boca um verso,
o coração espeta
e na sua mão eu me perdia.

Eu não era.
Sentia o ar
denso.
Ardência.

Acende um incenso.
Acende outra vela
Apaga essa luz
E me conta disperso
uma história de amor.

Outro dia fui no alto.
Vi um negro dando a volta na encosta.
O sol na pele, um cão sem cela.
Vi um olhar no fim do meio.

Te abracei e te ouvi.
Ouvi no peito.
Sentei na pedra
Fui pra longe
E fiquei sem espera.

Não sei o que sei.
Sabe o que falou?
Nada, nada sei.
Já pensou em falar
a língua do louco?
Ou o verbo infame das prostitutas
do antro de paz e de sonho?

Sorri, e vem aqui.
O que é o que é:
vida?
Qual é a pergunta que nunca se fez?

Tropecei.
Foi algo que falei?

Olhei e era 11 e trinta e três.
E com a resposta você já sumia.

Eu te entendo, amado da vez.
Você disse que numa hora saia,
Se despedia da ilha
E numa nave partia.

.........

E lá fora,
amiguinho,
como anda você lá fora de você?
Queria saber, mas não pago pra ver o que não gosto.
Prefiro o que já foi.

O fim do filme subiu...
A luz havia sido forte,
O grito ainda estancado
E eu por dentro arfava.

E esse,
É esse,
É isso!

Um clarão aberto
Uma lacuna velha.

Mas bela, bela,
Terei tudo quanto quero.

E você carne invisível ainda?
Alma perdida e minha,
Você que é igual a mina
que todo dia se saculeja em mim.
Você já vem, não vem?
Vem já,
Vem cá
Cá já...

Porque aqui o não, não há.
Porque meu céu é um furacão.

Só não demora,
Não me consolo,
Sem seu colo.