8 de mar. de 2013

A Virada

Naquele ano fora preciso
tirar do peito um pedaço
Sugar do sangue um riacho
pra lavar a alma de si mesma.

Dizer não te amo,
pra gritar em seu ouvido
o quanto te queria.

Apostar na última carta
pra não deixar mais rastro pro talvez.

Sentir a beleza desfiando pela mão
pra encará-la de frente
e torná-la uma lição

Negar a morada
pra chorar a despedida
Matar o ébrio em si,
pra encontrar Dionísio e seus afins.

Ceder para ganhar
Estancar para caminhar
Emudecer para assim cantar
Ter a si mesmo depois de tanto desvairar

Ou santo ou louco

O rosto de Smierdiákov nada teria revelado a um fisionomista; nenhum pensamento, pelo menos, apenas uma espécie de contemplação. [...]. Se algém desse um encontrão nele, estremeceria  e olharia  como quem desperta, mas sem compreender. Na verdade, voltaria logo a si, mas se lhe perguntassem em  que pensava, certamente não se lembraria de nada, mas, em compensação, guardaria para si a impressão que o dominava durante sua contemplação. Essas impressões são importantes para ele e se acumulam nele sem que o perceba, mas ele ignora o objetivo disso. Um dia, talvez, depois de havê-las armazenadas durante anos, deixará tudo e partirá para Jerusalém, a fim de tratar de sua salvação. Ou então ateará fogo à sua aldeia natal, ou fará as duas coisas sucessivamente. Há muitos contemplativos em nosso povo. Smierdiákov era certamente um tipo assim e armazenava avidamente suas impressões, quase sem saber a razão disso.


Os Irmãos Karamázov

10 de abr. de 2012

Fogo de otimismo
pela destruição do meu cenário.
Meus outros brilham
E eu, mesmo em cativeiro,
vou alcançando um dos cumes
 do vale das minhas buscas.
A concretização dos meus ensaios.

 Eles vieram prontos,
eu vim mastigada.
Mas me entrego aos reparos.
Exageradamente,
me quero transformada.

Fustigo com a última força meu veneno.
Me excedo e sou picada por mim mesma.

E é derrubada que percebo
que das portas estou por trás
porém as chaves
eu tenho as todas.

24 de mar. de 2012

Quantos tons de rosa tem um eu te amo? Uns mais opacos, outros brilhantes. Como diferencia-los, se todos são feitos das mesmas palavras?
Bom quando todos se vão, e por querer te deixam a sós. Consigo, com seus olhos, seu corpo. Seu ser completo. A olhar tempo, sem tempo, sem medo. Sozinho a amar o doce movimento do vento. Ou o outro que a outra ama. Escolhendo os quadros, com todo cuidado fotográfico com o domínio da própria pupila. Agradecendo a Deus, cada vírgula da existência, mas querendo também algo que sempre falta, nem que seja a palavra exata desse poema.
Brilhos, cintilantes.
Detalhe no canto dos olhos.
Altos saltos, belas peças.
Pendura mais um ferro na orelha.
Pigmenta a cútis com desejos.

Vira num gole uma taça de conhaque.
Dança com ele até embaixo.
Sobe como outra em desencargo.

Som da caixa estalando.
Trompetes.
Sirenes.
É tudo agudo.
Aguça.
Nada de recusa.

Mergulha no barro,
Vira lama,
Germina flores.
Se traduz em Terra.

Desfaz.
Refaz.
Disfarça.
Sou substituta de mim mesma,
Às vezes e
por vezes.
Revezo egos aleatórios.

É capital.
O fútil nos desarma.
Nos rebaixa.
Nos amarra a redes estéticas avançadas.

E é tudo oferenda.

Ofereço à Lucrecia,
às bacantes,
à Ogum.

Espirro de tinta borrada na camisa mal usada.
Gargalhada louca depois do fim do jogo.
Dados deuses isso cobiçam.

Agradecem.
E nos emprestam
genuína sabedoria apolínea.

Aos intelectuais

E eis que retorno de longo e pessoal exílio. E firme piso na areia de tão aclamado coqueiro. Onde um dia brilhei enfante, para em segundos me fechar em dogmas. Tentando me enquadrar naquilo que inversamente já vim moldada.

11 de nov. de 2011

Mirante da banheira

O céu se entrelaça com a água.
Nesse lago raso o olhar mergulha pra subir.
Meu umbigo acolhe solitário vôo pássaro.
A pele se tinge dessas nuvéns.

(O mundo é fundo, a verdade evapora)
Me afundo pra voar na superfície imersa nas alturas.

Nesse silêncio,
vou traçando trilhas no passado - é fundo de mim -
na luz desse presente - estão meus olhos abertos -
em busca de um futuro - esse azul é pra sonhar.

Meu amor,
ao seu lado tudo se condensa
Nosso laço de altos cumes, profundas vales,
não quero que se vá.

21 de nov. de 2010

Sementes na chuva

Fico rebubinando a mente até a infância.
O som do trem ressoando...

Penso que deveria
ter sido olímpica,
Mas insisti em fazer nado,
e de nada me adiantou.
Não amava, não queria,
mas insistia
Em fazer o que o coração não pedia.

Hoje temo que a voz dele ande fraca.
Procuro conversar, mas será que se ressentiu de tantos nãos.

Fico torcendo para ele me engambelar,
me levando sem que note pro alto da pedra.
Bem na hora que o sol se derrete no mar, só pra me ver dançar.

(E ele faz... Já fez e ainda fará)

Pensando bem, acho que posso acreditar
que afinal tudo aquilo que amo naturalmente vem pra mim.

Semente que brota na mata, não precisa de rega,
precisa de chuva e chuva quem controla não sou eu.

Querendo ou não a vida faz meu coração florir.

26 de mai. de 2010

Astrologia experimental

Sintam os planetas dentro de si, eles são deuses para serem adorados, sintam o sol, a lua, etc. Devagar. Sintam Áries, Touro, etc. Devagar. Durmam com eles. A compreensão virá aos poucos. Não se deve compreender somente pela mente, é preciso compreender com todo o seu ser.

Envolvam-se com os signos e planetas e eles virão conversar com vocês quando vocês os chamarem e lhes contarão segredos.

18 de fev. de 2010

A companhia

"- Não, eu não te deixava por isto. Mas mete uma coisa na tua cabeça, Pedro Ribeira Flores: eu não estou aqui para que te cases comigo. Não ando à procura de noivo nem de casamento. Estou contigo porque gosto da tua companhia, gosto de estar contigo, por mais diferente que nós sejamos - e somos." (Angelina, do livro 'Rio das Flores', de Miguel Souza Tavares)

15 de fev. de 2010

Meditação no meio de todos

Pousada na pedra com
os olhos meio abertos pro sol:
Os cílios são asas translúcidas;
Cortina de renda filtrando olhos alheios.

Uma libélula encosta
no ombro que virou rocha.
Ela tem olhos negros,
É leve, é viva.
Por ali fica.

Os excessos se ausentam.
E o caminho se lapida.
Sou acolhida pelo meio.
E abraço todo o instante em mim.

Pra isso,
válido se fazer calmo.
Ouvir voz que não se altera,
jamais se ausenta
e sempre integra.

Mas atenta!
Batuque lá fora
distrai o coração.
E o corpo se agita.
Perde-se a nota.
E a outra já voou.

É o erro, o vacilo,
o esquecimento de ser.
Mas nada invalida a lição.
Reconecte-se!
E outros deuses te acharão.

13 de fev. de 2010

Para uma amiga

O dia 12 encosta,
O 13 aporta,
A arte inaugura.
É conto de amiga.
Companheira madura nas palavras.
Aniversariante lapidadora da magia.

Acolhedor assistir o desabrochar de uma poeta,
folha a folha,
como ano a ano.

A leitura conduzindo a oníricas pinturas dos dias.
E ao suave dançar dos olhos.

Tradução do que é próprio do nosso tempo,
do nosso espaço,
das nossas buscas.

Poesia com gosto de lá em casa.
E de mãos dadas com o céu.

25 de jan. de 2010

A vida sabe mais de nosso sonhos

"Era um ótimo instrumento. Achei que traria uma grande virada na minha vida. Mas, estranhamente, livrar-me do Violoncelo foi um alívio. Eu me senti livre dos laços que me haviam amarrado por tanto tempo. O que sempre havia considerado meu sonho, talvez, na verdade não fosse"

Do filme "A Partida" de Yojiro Takita

21 de jan. de 2010

Cerejas

Véus coloridos:
Rosas,
Verdes,
Laranja,
Agora permitidos.

A beleza foi concedida por lei.

Brilhou uma luz feminina.
Enfeites.
Libertou uma deusa escondida.

Que eles construam os muros.
Nós o pigmentamos.

Não serve apenas a massa.
Nosso gênero concede o tempero.
Que emoção viria sem ele?

Se ele é útil,
Somos as cores e perfumes das flores.
Pode-se dizer fútil.
Mas detalhe nenhum vem em vão.