Professor: O que não vale a pena?
Ernesto: Ir à escola. (pausa). Não serve para nada. (pausa). Na escola, as crianças são abandonadas. A mãe põe os filhos na escola para que eles aprendam que estão abandonados. Assim ela se livra deles para o resto da vida. Silêncio. (...)
Professor: Então como é que se aprende?
Ernesto: Quando se quer aprender.
Professor: E quando não se quer aprender?
Ernesto: Quando não se quer aprender, não vale a pena aprender. Silêncio.
(Chuva de Verão - Marguerite Duras)
27 de set. de 2008
10 de set. de 2008
Por uma estética dos prazeres compartilhados
Sei dançar,
E quero um homem manso que saiba certo me olhar.
Num jeito que só olhos pingados da tranqüilidade de Deus podem fitar.
Você é puro.
Meu desejo, um broto.
Na testa, a febre.
No olhar, a prece.
A mão luva de lua larva.
A boca já não fala...
A música é nossa porta.
O céu, a nossa escola.
Sei dançar,
E quero um homem manso que saiba certo me olhar.
Num jeito que só olhos pingados da tranqüilidade de Deus podem fitar.
Você é puro.
Meu desejo, um broto.
Na testa, a febre.
No olhar, a prece.
A mão luva de lua larva.
A boca já não fala...
A música é nossa porta.
O céu, a nossa escola.
1 de set. de 2008
14 de ago. de 2008
Outro poema antigo, esse feito para aula do João Moreira Salles em 2004. É sobre um filme/ Globo Repórter chamado Retrato de Classe. Era vésperas de me formar e eu estava cheia de perguntas na cabeça e muita vontade explodindo no peito...
Um Retrato Retocado
Falaram-me que o tempo passa
- invisível.
Vi que as pessoas se matam
- e continuam vivas.
Ouvi que os casamentos afogam
- e matam de sede.
E que os pais amarram os filhos
para que não voem.
Chorei por que tive medo
Por que tive certeza
Que é isso que querem que eu faça.
Sorri por que me lembrei que não!
Não é isso que eu quero que eu faça.
Não quero boiar
como a sementinha jogada no rio.
Nem me acabar na terra rachada e seca.
Quero brotar.
Disso um Retrato de Classe me fez lembrar...
Mas o meu retrato ainda quer ser diferente deste.
(No conteúdo e tanto na forma)
No conteúdo quer ser livre,
Não contrato.
Na forma quer ser poesia,
ponto de vista,
papel assinado embaixo.
Não discurso escondido,
sem nome,
absoluto - como um documento.
Mas minha vida de classe também quer ser igual ao Retrato.
(No conteúdo e tanto na forma)
No conteúdo também quer ser humano, demasiadamente humano.
Na forma, revolucionário, rompante
- como uma arte.
Um Retrato Retocado
Falaram-me que o tempo passa
- invisível.
Vi que as pessoas se matam
- e continuam vivas.
Ouvi que os casamentos afogam
- e matam de sede.
E que os pais amarram os filhos
para que não voem.
Chorei por que tive medo
Por que tive certeza
Que é isso que querem que eu faça.
Sorri por que me lembrei que não!
Não é isso que eu quero que eu faça.
Não quero boiar
como a sementinha jogada no rio.
Nem me acabar na terra rachada e seca.
Quero brotar.
Disso um Retrato de Classe me fez lembrar...
Mas o meu retrato ainda quer ser diferente deste.
(No conteúdo e tanto na forma)
No conteúdo quer ser livre,
Não contrato.
Na forma quer ser poesia,
ponto de vista,
papel assinado embaixo.
Não discurso escondido,
sem nome,
absoluto - como um documento.
Mas minha vida de classe também quer ser igual ao Retrato.
(No conteúdo e tanto na forma)
No conteúdo também quer ser humano, demasiadamente humano.
Na forma, revolucionário, rompante
- como uma arte.
12 de ago. de 2008
Regras da vida
Burocrática vida,
estaticamente tediante,
caverna numérica
labirinto sem saída.
Ligações virtualmente reais
não dão sinais,
não enviam postais
de vida,
de instâncias pessoais.
Os vasos estão entupidos.
As veias fracas de sangue!
Vidas floridas,
por favor, floresçam!
Já basta
de vidas secas,
enfurnadas mentes,
minhocas caminhando na pele,
falta de ar.
Falta que me faz traçar caminhos nas estrelas.
Jogar fora esses ponteiros, e
saber a hora pelo sol.
Quero deitar a cabeça
no ombro, na pele, barriga.
Quero tirar a bunda da cadeira
e as regras do papel!
E enfiá-las como anel de matrimônio
No dedo da consciência,
na legislação do querer.
Por uma vida em família
dias bem-vindos vividos,
amor de graça doado e
canção por todos tocada.
Rio de Janeiro, Janeiro de 2001
Burocrática vida,
estaticamente tediante,
caverna numérica
labirinto sem saída.
Ligações virtualmente reais
não dão sinais,
não enviam postais
de vida,
de instâncias pessoais.
Os vasos estão entupidos.
As veias fracas de sangue!
Vidas floridas,
por favor, floresçam!
Já basta
de vidas secas,
enfurnadas mentes,
minhocas caminhando na pele,
falta de ar.
Falta que me faz traçar caminhos nas estrelas.
Jogar fora esses ponteiros, e
saber a hora pelo sol.
Quero deitar a cabeça
no ombro, na pele, barriga.
Quero tirar a bunda da cadeira
e as regras do papel!
E enfiá-las como anel de matrimônio
No dedo da consciência,
na legislação do querer.
Por uma vida em família
dias bem-vindos vividos,
amor de graça doado e
canção por todos tocada.
Rio de Janeiro, Janeiro de 2001
11 de ago. de 2008
Poema de um livrinho antigo meu: poema de 2001. Lá se vão os anos, aqui se volta a rota, eterno e maravilhoso retorno, sempre igual, sempre outro.
Não sei
Hoje não sei
reconhecer vontade
evitar desvontade.
Hoje pego o que me dão,
ouço qualquer canção.
Tudo vem sem desconcerto,
sem acerto.
E você com esses olhos de inverno
gelados atrás do vidro externo,
me deixa sem saber se
abro ou travo
essa janela que bate
me oferecendo aconchego
me suplicando um abraço.
Não sei
Hoje não sei
reconhecer vontade
evitar desvontade.
Hoje pego o que me dão,
ouço qualquer canção.
Tudo vem sem desconcerto,
sem acerto.
E você com esses olhos de inverno
gelados atrás do vidro externo,
me deixa sem saber se
abro ou travo
essa janela que bate
me oferecendo aconchego
me suplicando um abraço.
27 de jul. de 2008
11 de jul. de 2008
28 de jun. de 2008
Ser livre, pois que não somos. Andar pelas ruas, andar no meio do mato, aprender a falar, aprender a ouvir, aprender a ver, aprender o que é necessário para passar, aprender a ajudar quem precisa. Compor a vida com cuidado e esmero. Todo dia, um novo dia. E que assim seja até o fim e que no fim se veja, enfim, um novo fim adiante...
2 de jun. de 2008
Inspirador e direcionador dessa coisa louca que é escrever...
Um poema de Alberto Caiero...
Acordei hoje, peguei pra ler e sabia que ia encontrar uma resposta, pra uma pergunta que nem sei muito bem qual é, mas que me persegue sempre.
XLVI
Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal ou com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar de um corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caiero,
Mas um aninal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a natureza e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Unisverso
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
Alberto Caieiro ou Fernando Pessoa
Um poema de Alberto Caiero...
Acordei hoje, peguei pra ler e sabia que ia encontrar uma resposta, pra uma pergunta que nem sei muito bem qual é, mas que me persegue sempre.
XLVI
Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal ou com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E não precisar de um corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caiero,
Mas um aninal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a natureza e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Unisverso
Porque trago ao Universo ele-próprio.
Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.
Alberto Caieiro ou Fernando Pessoa
28 de mai. de 2008
8 de mai. de 2008
("Mas já!?")
...não disse...
Preferiu tecer comentário fútil sobre seus cabelos.
E do momento retirou só e tanto
alguns beijos no rosto,
um pouco do seu peso
e uma mão leve sobre a lateral da sua perna.
(Ah, em poucos dedos caberiam outros momentos sinceros como esse!)
Deitada no puff
Ficou muda
querendo que ele voltasse,
que o tempo parasse.
(E se gritasse?
Mas talvez a ansiedade se instalasse
e a beleza evaporasse...
"can get no satisfection?" )
Ficou surda,
um pouco puta...
(A TV não aprovaria essa atitude:
beija sapo, beija bafo, beija qualquer coisa, mas beija, beija, beija,
mesmo que no fundo não esteja inteira,
que não seja bem da sua maneira.)
Mas os versos vindo do alto dos prédios,
lhe restaram como remédio impresso.
E repetiu como mantra aflito e sincero:
(Nessa vida nada de bom vem com a pressa,
foda-se essa guerra!)
(...bem que ele podia voltar,
nem que fosse para emudecer ainda mais o momento
olhar a paisagem,
sentir o sensível,
ouvir o respiro,
tocando de leve a pele,
bem aos poucos,
com tal e qual naturalidade,
que esqueceria
certo e errados,
antes e depois.
E se viesse um beijo - se viesse...
nem haveria pensamento de beleza
só restaria o beijo,
inteiramente deles,
sem nem desejo de outros,
só o percurso leve do rio infinito daquele.)
...não disse...
Preferiu tecer comentário fútil sobre seus cabelos.
E do momento retirou só e tanto
alguns beijos no rosto,
um pouco do seu peso
e uma mão leve sobre a lateral da sua perna.
(Ah, em poucos dedos caberiam outros momentos sinceros como esse!)
Deitada no puff
Ficou muda
querendo que ele voltasse,
que o tempo parasse.
(E se gritasse?
Mas talvez a ansiedade se instalasse
e a beleza evaporasse...
"can get no satisfection?" )
Ficou surda,
um pouco puta...
(A TV não aprovaria essa atitude:
beija sapo, beija bafo, beija qualquer coisa, mas beija, beija, beija,
mesmo que no fundo não esteja inteira,
que não seja bem da sua maneira.)
Mas os versos vindo do alto dos prédios,
lhe restaram como remédio impresso.
E repetiu como mantra aflito e sincero:
(Nessa vida nada de bom vem com a pressa,
foda-se essa guerra!)
(...bem que ele podia voltar,
nem que fosse para emudecer ainda mais o momento
olhar a paisagem,
sentir o sensível,
ouvir o respiro,
tocando de leve a pele,
bem aos poucos,
com tal e qual naturalidade,
que esqueceria
certo e errados,
antes e depois.
E se viesse um beijo - se viesse...
nem haveria pensamento de beleza
só restaria o beijo,
inteiramente deles,
sem nem desejo de outros,
só o percurso leve do rio infinito daquele.)
17 de abr. de 2008
1 de abr. de 2008
O desejo
Primeira estrela,
faça o que desejo,
meu São Longuinho,
me devolva o que perdi.
Que seja amável e amante
e recupere, antes do fim, meu complemento.
Não sei muito ainda,
sigo trilhas,vigas,dicas,viagens,vontades.
É um rio rosa de água morna e morena.
É o impulso,
cheio de receios justos de medos,
de ver tocar um serpente verde e longa a minha porta.
É a luta na hora propícia da luta.
É a paz de se saber não devedor.
É essa energia rugosa de uma chapada bruta,
um quase labirinto de mistérios
repleto de gatos,
normalidades elevadas,
mentes anuviadas,vozes calibradas
e outras 'ganícias' enroscadas.
Vem, minha cara fé,
ficar como voz primeira nesse meu mundo escuro,
meio vulto, meio escuso.
Me livre desse refúgio covarde onde me protejo,
quando insana, daquilo que mais quero.
Preciso da sua força redentora.
Pois quero muito um curso liberto
que nos puxa pela mão
e faz o corpo ceder e subir ao céucomo fumaça.
(Chapada Diamantina)
Primeira estrela,
faça o que desejo,
meu São Longuinho,
me devolva o que perdi.
Que seja amável e amante
e recupere, antes do fim, meu complemento.
Não sei muito ainda,
sigo trilhas,vigas,dicas,viagens,vontades.
É um rio rosa de água morna e morena.
É o impulso,
cheio de receios justos de medos,
de ver tocar um serpente verde e longa a minha porta.
É a luta na hora propícia da luta.
É a paz de se saber não devedor.
É essa energia rugosa de uma chapada bruta,
um quase labirinto de mistérios
repleto de gatos,
normalidades elevadas,
mentes anuviadas,vozes calibradas
e outras 'ganícias' enroscadas.
Vem, minha cara fé,
ficar como voz primeira nesse meu mundo escuro,
meio vulto, meio escuso.
Me livre desse refúgio covarde onde me protejo,
quando insana, daquilo que mais quero.
Preciso da sua força redentora.
Pois quero muito um curso liberto
que nos puxa pela mão
e faz o corpo ceder e subir ao céucomo fumaça.
(Chapada Diamantina)
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